Motivações

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Um elemento importante de todo personagem que não aparece na ficha é a sua motivação, que pode ser imutável ou estar sempre em transformação.

A Motivação (do latim movere, mover) refere-se à condição do indivíduo que direciona suas ações e engloba conceitos tão diversos como medos, anseios, desejos, vontades, esforços e sonhos. É o impulso que leva à ação e a atração que o une a outros parecidos com ele, e no RPG funciona para orientar jogadores e narradores a entender como o personagem se comporta diante de uma série de dilemas.

Exemplo: Um fugitivo consegue escapar de seus perseguidores ao entrar pelo esgoto da cidade. Os guardas desistem de continuar a perseguição pois não têm interesse de se arriscar (ou mesmo se sujar tanto) para pegar o ladrão, mas os capangas do bispo sabem que o fracasso lhes trará consequências terríveis, e apenas eles entram no esgoto atrás do fugitivo.

A motivação pode ser observada sob duas perspectivas distintas: impulso e atração. O impulso diz respeito às necessidades internas que fazem o personagem agir desta ou daquela maneira, e a atração é a força que puxa, atrai personagens que tenham similaridades, seja pelos ideais, objetivos, interesses, gostos ou visões similares sobre o mundo que os cercam.

Outro conceito que influencia a motivação é quando ela é intrínseca (vem do próprio personagem) ou extrínseca (gerada por influências externas de reforço e/ou punição). Quanto mais importante é um personagem dentro da história, mais motivações intrínsecas ele possui, afinal ele tem uma personalidade e liberdade de escolha maior que figurantes e outros personagens menores, que tendem a ser mais alvos de motivações extrínsecas, já que eles possuem menos personalidade e são mais suscetíveis a influência de personagens mais importantes.

Exemplo: Quando uma ordem de cavalaria possui a motivação “proteger os mais fracos para mostrar sua nobreza”, cavaleiros figurantes seguem um comportamento protetor mais pela influência (extrínseca) dessa ordem, que faz eles serem assim por uma questão cultural. Já um protagonista desta ordem provavelmente teria uma série de outras razões próprias (intrínsecas) para reforçar essa motivação.

Porque a Motivação não aparece na Ficha de Personagem?

Se esta força possui uma influência tão grande sobre o personagem, pode parecer estranho que a Motivação não apareça na ficha de personagem. O problema é que nenhum personagem deve ser escravo ou estar preso a suas motivações, que podem ser muitas e de várias origens e que seriam difíceis de registrar. Além disso, diferente de outros aspectos como o Comportamento e o Histórico, no desenrolar da crônica as motivações podem mudar completamente de acordo com os acontecimentos e rapidamente essas anotações na Ficha de Personagem se tornariam obsoletas.

Um indivíduo de mentalidade simplória (ou numa história simplória) pode manter as mesmas motivações por toda a crônica, e pode não haver nada de errado nisso, mas personagens mais complexos costumam criar novas motivações à medida que eles interagem dentro daquele cenário.

Segue uma lista de exemplos de motivações bastante comuns nas histórias de fantasia medieval:

♦ Personagens simplórios se preocupam apenas em fazer o seu trabalho e agem em favor da prosperidade dos seus, mesmo que causem prejuízos a outros grupos menos importantes para eles.
♦ Servos e soldados rasos costumam estar menos envolvidos com as causas de seus líderes e mais preocupados com a sua autopreservação, portanto podem fazer corpo mole para atender ordens mais difíceis ou complexas.
♦ Familiares se tornam com facilidade oponentes numa série de disputas internas, mas nos confrontos externos se unem e suportam muito mais seus atritos para esmagar os inimigos em comum.
♦ Subordinados que têm ambição para crescer dentro de uma organização têm interesse maior em se destacar servindo seus superiores da melhor maneira que lhes for possível.
♦ Combatentes que vivem do ofício da guerra entendem a lei do mais forte, assim como a necessidade de respeitar e defender seus aliados nos momentos de tensão para ter a certeza de que depois o gesto será retribuído.
♦ Religiosos se vêem como ilustres membros de uma instituição ou organização iluminada que os coloca mais próximos dos desígnios divinos e acima da população comum, mesmo nos sectos mais benevolentes.
♦ Regentes vêem uns aos outros como jogadores de um elaborado tabuleiro formado por peças de manobras e peças que devem ser protegidas e sustentadas; todos têm pontos fracos que podem ser encontrados.
♦ Cultistas acreditam existir uma causa maior e mais importante que eles mesmos e fazem de tudo para obedecer suas lideranças, às vezes mesmo sacrificar suas vidas e as daqueles à sua volta.
♦ Arcanistas são movidos por uma sede de conhecimento e poder que faz com que saiam de seus refúgios e bibliotecas para tentar saciá-la, mesmo que tenham de contratar guardas-costas para estas buscas.
♦ Nobres podem abraçar causas que acreditam ser mais importantes que eles próprios e assim se retiram de suas zonas de conforto e vidas sedentárias e auto-indulgentes, ou se tornam hedonistas egocêntricos e cegos ao mundo fora de percepção.
♦ Criminosos vivem sob códigos de conduta que podem ser perniciosos e ultrajantes, mas que para eles fazem sentido completamente e muitas vezes os jogam uns contra os outros em disputas sem fim.
♦ Toda guarda pessoal ou de elite vive para servir os seus senhores e nutre maior admiração e respeito por quem se sacrifica mais por eles. Vivem num círculo virtuoso de atividades que os tornam os melhores naquilo que fazem.
♦ Aliados de oportunidade podem se favorecer e beneficiar uns aos outros, mas nos momentos de crise pensam apenas em si e nos seus. O problema é que apenas nessas horas súbitas eles se destacam dos verdadeiros aliados.
♦ Personagens rancorosos vão acumulando grandes listas de inimigos para que aos poucos possam ensinar que mexeram com a pessoa errada. Podem até se juntar a causas de novos aliados para destruir rivais antigos.
♦ Monarcas podem se sentir exaltados por forças que lhes dão enorme poder, mas mesmo assim guardam necessidades mundanas como qualquer um. Talvez por isso, tudo o que lhes lembra de sua destas limitações pode mexer com os seus brios.

One Comment

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One Comment on “Motivações
  1. Texto muito interessante, adoro os textos do portal. E gostei do detalhamento da motivação e suas consequência, podem ser belos ganchos de tramas e decisão de aliados e inimigos.

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