Uma Segunda Chance

_ContosDesde o começo do projeto temos recebido várias ofertas de contos para publicação, mas apenas T. C. Oaks nos convenceu de publicar a história dele. Se você tem algum material muito bom por aí, mande para nós. Quem sabe seu conto também não aparece por aqui.

Uma Segunda Chance

O Sol morreu vermelho naquele fim de dia.

Rubro como o solo lamacento no campo de batalha. Lama, sangue e restos dilacerados, que outrora foram guerreiros, misturavam-se esmagados em meio às pegadas.

Os corvos refestelavam sobre a carniça e grasnavam alegres diante do banquete. à sua frente. O fedor nauseabundo e ferroso do sangue impregnava o campo e pairava junto à névoa que se formava.

Depois de uma batalha daquelas proporções, cabia aos deuses cobrarem a vida dos guerreiros falecidos. Os espíritos ainda apegados aos corpos, relutavam em acreditar que haviam partido e muitos lamuriavam pelo local, criaturas necrófagas começavam a
perseguir o cheiro de carniça e logo disputariam com os corvos o banquete funesto. E ainda haviam aqueles que se alimentavam da dor e do sofrimento que lugares como aquele geravam.

Nenhuma viva alma com o mínimo de juízo caminharia por ali depois do que ocorrera.

Mas o velho Tadius não era um homem supersticioso. Também não tinha todo o juízo em sua velha mente, não mais. O velho era um homem amargamente obstinado, e nem mesmo os mortos o impediriam.

Três dias antes, aqueles cadáveres bradavam desafios cheios de vida. Soldados valentes e arrogantes guiados por um homem belicoso conhecido pelo título de Lorde Bran

Bran era um assassino, um estuprador e um maníaco! Deliciava-se com o homicídio, , comandava pela força e seu chicote era o medo. Em tempos normais, teria logo sido aprisionado e executado, mas, aqueles eram tempos de guerra. E por isso Bran o Devasso recebera o título de nobreza ao invés dos grilhões e da forca.

Lorde Bran estacionara nas terras do velho Tadius com seu exército. Tomara o gado, a cerveja e as filhas do homem como lhe era por direito, e como gafanhotos secara as terras do pobre agricultor.

Quando partiu, o exército levou tudo o que velho tinha, até mesmo suas três filhas, que gritavam desesperadas. Deixaram como recompensa ao ancião somente um nariz partido, que ele ganhou ao tentar impedir a abdução de sua prole.

Agora Tadius vagava pelo campo de batalha, ignorando os augúrios ou o lamento dos mortos, movia cada um dos cadáveres em busca do que procurava. Quando achava um dente de ouro no corpo dava-lhe uma martelada, quando encontrava um anel arrancava o dedo da vitima e tomava-lhe a joia. Colocava tudo numa pequena bolsa de couro.

Achou somente uma das filhas, morta e estripada como um veado. As entranhas à estrangulando, Tadius nem mesmo chorou, colocou uma moeda de prata na boca da filha e um escapulário em seu pescoço. Murmurou uma prece, deu um beijo na testa fria e continuou sua busca.

Não encontrava as outras duas, possivelmente, agora aqueciam o leito de algum, ou ainda alguns soldados do exército vitorioso. O velho pediu aos deuses misericórdia, pediu que elas morressem logo.

Pediu também que o membro daqueles violadores inchassem de pus e caíssem podres.

Continuou vagando pelos corpos, o frio agora era maior, assim como os lamentos, com o canto dos olhos percebia que alguns dos mortos começavam a se erguer, o velho teve um calafrio, mas continuava aproveitando a parca luz do crepúsculo para ajuda-lo em sua busca.

E finalmente obteve resultado.

Pisoteada amarrotada e cheia de urina e sangue ele viu o trapo com o símbolo de uma mulher nua sentada num touro, o brasão de Bran e ao lado dela, encontrou seu dono.

Bran tinha uma enorme chaga que atravessara-lhe o gibão e abrira o ventre. A carne estava à mostra: vermelha e brilhante. O velho foi até o lorde caído e moveu-lhe. Bran então gemeu de dor.

Uma expressão de jubilo veio aos lábios do Velho Tadius.

– Obrigado Nêmeses, por ouvir minhas preces e poupar a vida deste porco! – Falou olhando para os céus com os olhos cheios de lágrimas.

Bran abriu seus olhos e viu o velho sobre ele.
– Ajuda-me, – clamou, tenho ouro e prata escondidos, se salvar minha vida serão teus!

O velho gargalhou. Algumas das almas penadas se incomodaram com o som e começaram lentamente sua marcha naquela direção.

– Ouro? Por quê pessoas como você acham que o ouro a tudo compra? – O velho falou com pesar. Sua voz era ressequida, amarga e tinha um tom profundo e triste.

– Sabe, eu e minha querida esposa, que hoje já caminha com as deusas da colheita, sempre sonhamos com um pedacinho de chão pra morar e arar, – o velho falava tranquilo, quase divagando, Lorde Bran, tremia em parte pelo sangue perdido, parte pelo horror, ao perceber que o campo de batalha cheio de cadáveres começava a se encher de vida, ou melhor, de não vida.

– Nós conseguimos esse cantinho, era nosso paraíso, – o velho continuou, – tivemos quatro filhas, Primavera, Verão, Outono e finalmente Inverno. Mas Inverno não nasceu bem, ela era bem fraquinha, então veio a tosse de sangue e levou a ela e a minha mulher. Ficou eu e as minhas três menininhas. Éramos felizes…

– Sabe, eu sempre amei demais as três! Mas Verão era, – Os olhos do velho encheram-se de alegria enquanto falava o nome da filha. – Verão era minha razão de viver! – Ele riu com a lembrança que se formava. – Aquele sorriso maroto, ela era o Sol na nossa vida chuvosa.

O Velho divagava feliz, Bran tentava se arrastar, o lamento dos cadáveres agora era maior. Ao longe o guerreiro combalido via dez, talvez vinte corpos que caminhavam tropegamente em direção a eles.

– Eles estão vindo, homem! Exijo que tires me daqui! – Ele falou entre tossidos. Tadius encarou-o.

Os olhos do velho estavam marejados, mas seu olhar era cortante. Quando falou, sua voz não possuía resquícios de felicidade.

– Então você chegou! Seus homens gargalhavam e zombavam! – O velho continuava falando. – Chegaram urinando e pisoteando meu campo. Mataram nossa única vaca, o animal que nos permitia tirar o leite para a manteiga e o queijo. O queijo que eu tanto gostava, e que minhas amadas filhas com tanto carinho preparavam! – A voz do velho não se elevou. Ele não gritou, mas Bran sentia a fúria gélida naquele homem.

– E seus homens rasgaram minhas filhas, as usaram como prostitutas sem se importar! – O velho falou endurecido, Bran engoliu em seco, falou rapidemente.

– Eu não fiz isso, foram meus homens. Tu tens de me dar uma chance de recompensá-lo! – o lorde gemeu entre tossidas cheia de sangue.

– MENTIROSO! – O Velho urrou e vários dos cadáveres reerguidos reclamaram, e iniciaram sua marcha trôpega em direção dos dois. O velho continuou.

– Somente um rapaz lutou contra isso! – Falou ainda mais alto. – Vocês o espancaram! Você diz que não encostou em minhas filhas? Você pessoalmente violentou as três! E me fez assistir! Você que deveria guardar a honra delas foi o primeiro a desonra-las! – O velho gritou essas palavras e levou uma faca até o seu senhor prostrado, Bran, encarava o velho, quando percebeu as verdadeiras intenções dele, recuperara a coragem. Cuspiu na face de Tadius coágulo e escarro misturados que bateram na bochecha esquerda do velho e escorreram lentamente.

O que está esperando então seu velho idiota? – Bran provocou. – Hã? Acabe logo com isso! Bradou.

Tadius riu mais uma vez, curvou o ombro.

– Ah seu tolo, acha mesmo que vim aqui matá-lo? Eu achei que estivesse morto quando decidi caminhar até aqui. Vi quando o derrubaram do cavalo, vi quem o derrubou!

-Foi o mesmo garoto que você espancou o único que tentou proteger minhas filhas! Foi por ele que vim. Para dá-lo o que você negou às minhas filhas: um enterro digno. Já dei adeus a Outono, vou ainda achar Primavera e minha Verão. Tenho uma moeda para cada uma, para o barqueiro dos mortos as conduzir, e um escapulário para seu corpo não ser conspurcado. Acharei o rapaz e o agradecerei a gentileza. No entanto, para isso meu Lorde, preciso manter os mortos alimentados, e Nêmeses, minha Deusa, me deu você!

O Velho saltou sobre o homem ferido e com a faca que tinha nas mãos, cegou Bran, que urrava. Por fim fez um enorme talho no rosto do guerreiro caído.

– Os mortos virão até você e se refestelarão em sua carne ainda quente. Você me dará a chance de dar o enterro aos que merecem. E eu espero que os necrófagos deixem algo seu para que assim, você também vague pela eternidade, condenado!

O velho deu as costas enquanto Bran urrava desesperado. Os mortos trôpegos demoraram ainda a chegar ao corpo, e aos poucos rasgavam carne com seus dentes. Os gritos do lorde só chamavam mais e mais dos reerguidos para perto de si.

E enquanto Bran gritava o velho vagava pelo campo, ele encontrou Primavera, e assim como na primeira, colocou na filha estripada o escapulário no pescoço e a moeda em sua boca.

Finalmente ele encontrou o rapaz, ele estava caído com a face voltada para o chão. O velho o reconhecera porque o rapaz tinha uma estranha tatuagem no braço esquerdo, que lembrava a face de um dragão. Era uma imagem de mau agouro, e poucos tinham coragem de portá-la. Pois aquele era o símbolo do Senhor dos Mortos.

– Finalmente o encontrei rapaz. Eu queria lhe agradecer. –O velho falou, ao longe, Bran ainda gritava.

– Sabe, o que você fez, pode não ter parecido importante, mas foi! Você tentou!

Tadius respirou fundo, os olhos cheios de lágrimas e sentou do lado do corpo do rapaz.

– Você tentou salvar minhas filhas, você tentou derrubar esse maldito carniceiro. Você pode não ter conseguido, mas pelo menos você tentou, foi mais do que alguém jamais fez por mim.

O velho virou o corpo do homem, seus olhos estavam vidrados, a pupila dilatada, a pele lívida.

– Sabe eu queria acreditar que as pessoas são boas, que os guerreiros existem para nos proteger, mas sei que isso é mentira. No entanto, naquele momento, você fez tudo isso ser verdade…

O velho colocou um escapulário ao redor do corpo do rapaz e outro em seu próprio. Pegou o pequeno saco de couro que continha os dentes de ouro e algumas joias, pegas no campo de batalha, e colocou no bolso do rapaz.

– É uma pena, que não pude agradecê-lo enquanto estava vivo. – Ele pegou uma moeda de prata, girou-a nos dedos, e depois a colocou na boca, quando falou sua voz saiu engrolada.

– Mas para você eu dou uma segunda chance.

O velho ergueu o punhal que vazara os olhos de Bran e cravara-o em seu peito, estremecendo por um tempo e então soltou o ar uma ultima vez, ao longe Bran ainda gritava.

O rapaz que até aquele momento estivera morto puxou o ar com força, colocou-se sentado em pânico, sem entender o que acontecia. Percebeu onde estava e viu um velho morto ao seu lado. não sabia como mas havia sobrevivido!

Confuso tentava entender o que havia acontecido, mas se deu conta de que os mortos já devoravam um dos infelizes caídos naquele local, não queria ser a próxima refeição.

Colocou-se de pé, e encarou o velho caído ao seu lado, sentiu por ele uma profunda gratidão. Sem saber ao certo porque arrastou o corpo do ancião para longe do campo de batalha assim que estivesse em segurança, daria ao velho um enterro digno.

Sentia-se muito feliz por estar vivo.

E ao longe Bran ainda gritava

E ele ainda gritaria por muito, muito tempo…

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